Kitabı oku: «Dona Flor e seus dois maridos / Дона Флор и два ее мужа», sayfa 6

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Flor sorria com seu delicado rosto redondo, cor de mate, sorria com as formosas covinhas das faces, com os olhos surpresos, repetia com sua voz cansada, voz de dengo e de madorna:

– Não gosto dele… É feio como a necessidade…

“Que diabo ela pensava?”, dona Rozilda subia a serra. Flor estava agindo como se casamento fosse questão de gostar ou não gostar, como se houvesse homem feio e bonito, como se pretendente igual a Pedro Borges andasse sobrando pela ladeira do Alvo.

– O amor vem com a convivência, minha condessa de titica, com os interesses em comum, com os filhos. Basta que não haja antipatia. Você tem raiva dele?

– Eu? Não, Deus me livre. Ele é até bonzinho. Mas só caso com o homem que eu ame… Esse Pedro é um bicho de feio… – Flor devorava romances da Biblioteca das Moças, apetecia-lhe rapaz pobre e bonito, atrevido e loiro.

Espumava dona Rozilda de raiva e excitação; a voz esganiçada cruzando a rua, transmitindo os ecos da disputa a todos os vizinhos:

– Feio! Onde já se viu homem feio ou bonito? A beleza do homem, desgraçada, não está na cara, está é no caráter, na sua posição social, em suas posses. Onde já se viu homem rico ser feio?

Quanto a ela, não trocava o feioso Borges (e até não era tão horrível assim, um tipo alto e forte, a cara um pouco espinhosa, é verdade) por toda essa caterva de moleques atrevidos e insolentes do Rio Vermelho, sem tostão no bolso, sem onde cair mortos, uns vagabundos. O dr. Borges – antecipava-lhe o título – era moço de bem via-se logo em seus modos, de família distinta do Pará, distinta e podre de rica. Ela, dona Rozilda, tinha sabido: a residência deles em Belém era um palácio, só de criados mais de uma dúzia. Uma dúzia, ouviu, filha ruim, caprichosa e tola, fátua e absurda. Todos os pisos de mármore, de mármore as escadarias. Estendia as mãos, teatral:

– Onde já se viu homem rico ser feio?

Flor sorria, as covinhas do rosto eram uma lindeza, não tinha pressa em casar. Tapava a boca da mãe:

– A senhora fala como se eu fosse mulher-dama para medir os homens pelo dinheiro… Não gosto dele, se acabou…

A luta entre dona Rozilda, irritada e irritante, num nervosismo de doente, e Flor, serena como se nada estivesse acontecendo, peleja da qual Pedro Borges era objetivo e prêmio, atingiu o ápice quando das festas de formatura no fim daquele ano. O doutorando as convidara para o ato solene e para o baile.

Para o ato solene, no salão nobre da faculdade, dona Rozilda vestiu-se de sogra, toda armada em tafetá, majestosa como um peru de roda, a rir até pelos babados das mangas, um pente de dançarina espanhola espetado no coque. No baile de formatura, Flor resplandecia em rendas e filés, não teve descanso. Não falhou uma só contradança, tantos os cavalheiros a solicitarem-na. Mas, nem assim concedeu esperanças ao recém-formado.

Nem mesmo quando ele, em vésperas de partir para a Amazônia longínqua, veio visitá-las, trazendo o pai para melhor impressionar. Chamava-se Ricardo o graúdo paraense, um gigante, vozeirão de trovoada, os dedos pejados de jóias – dona Rozilda quase desmaia ao fitar tanta pedra preciosa. Havia um carbonado sem tamanho, valia pelo menos cinqüenta contos de réis, ai, meu Deus!

O velho falou de suas terras, dos índios mansos e da borracha, das histórias do rio Amazonas. Falou também de sua alegria ao ver o filho doutor, de canudo de médico. Só lhe faltava agora vê-lo casado, com moça direita, modesta e sincera, não fazia questão de dinheiro, dinheiro ele juntara bastante – movia os dedos, os brilhantes faiscavam, iluminando a sala. Queria nora que lhe desse netos e netas para encherem de bulha e calor aquela austera casa de mármore, em Belém, onde o velho Ricardo, viúvo, vivera solitário os anos de faculdade de Pedro. Falava e olhava para Flor como à espera de uma palavra, de um gesto, de um sorriso: se aquilo não era introdução para um pedido de casamento, então dona Rozilda era uma ignorante de tais coisas. Tremia ela de emoção e ânsia, chegara a hora abençoada, jamais estivera tão perto de seus objetivos, fitava a bobela da filha esperando seu acordo tímido porém firme. Mas Flor apenas disse com sua voz de madorna:

– Não vai faltar moça bonita e direita para casar com Pedro, ele bem merece. Eu só queria que fosse aqui, na Bahia, que era para eu preparar o banquete do casamento.

Pedro Borges recolheu sem ressentimentos a aliança de ouro já adquirida, o velho Ricardo pigarreou, mudou de assunto. Dona Rozilda sentiu-se mal, ofegante, o coração descarrilhando. Saiu da sala num repente indignado, temia ter uma coisa, desejou ver a filha morta e enterrada, a ingrata, a bestalhona, a idiota, inimiga da própria mãe, amaldiçoada! Como se atrevia ela a recusar a mão do doutor – agora realmente doutor – , do moço rico, do herdeiro das ilhas, dos rios e dos índios, dos mármores todos, dos faiscantes anéis, ai, como se atrevia a infeliz bastarda?

Ah!, que muro de ódio e inimizade, de imperdoável incompreensão, intransponível de rancor, não se ergueria entre mãe e filha, juntas para sempre e para sempre separadas, se naquele começo de ano, logo após a partida do desprezado Borges, não houvesse surgido Vadinho! Ah!, diante dos títulos, da posição e da fortuna de Vadinho – pelo próprio Vadinho e por alguns de seus amigos fora dona Rozilda amplamente informada – não passava o paraense de um pobretão, com todo o mármore de seu palácio e seus doze criados; de um indigente, com toda sua terra e toda sua água.

6

Numa breve e polida curvatura, Mirandão, o rosto resplandecente de simpatia, pediu licença, sentou-se ao lado de dona Rozilda. As cadeiras de palhinha circundavam a sala, encostadas à parede. O estudante crônico (“perseverante”, corrigia ele, se lhe recordavam seus sete anos de escola de agronomia) estendeu as pernas, ajustou cuidadoso o vinco das calças, analisando os pares no tango argentino caprichado, figurações difíceis, passos quase acrobáticos, sorriu aprovativo: nenhum dançarino podia comparar-se a Vadinho, nenhum com sua classe, benza-te Deus e te livre do mau-olhado, t’esconjuro! Mirandão era supersticioso. Mulato claro e pachola, de seus vinte e oito anos de idade, a mais popular figura dos castelos e das casas de jogo da Bahia.

Sentindo o olhar de dona Rozilda a acompanhar o seu, para ela voltou-se, abrindo ainda mais o cativante sorriso, a examiná-la com olho crítico e apreciador. “Bucho definitivo, sem serventia”, concluiu com pesar. Não devido à idade. Há muito Mirandão inscrevera em seu código de procedimento com as mulheres um parágrafo afirmando jamais a nenhuma dever-se desprezar por madura ou velha, caso contrário podia-se cair em erros fatais. Mulheres já além dos cinqüenta ainda por vezes mantinham rara e admirável forma e juventude, capazes de surpreendentes performances, de recordes imprevisíveis. Ele o sabia por viva experiência, e ainda agora, ao fitar as ruínas de dona Rozilda, recordava-se do esplendor crepuscular de Célia Maria Pia dos Wanderleys e Prata, todos esses nomes para designar uma tampinha desse tamanho, senhora da alta sociedade, mulherzinha espevitada, levada da breca. Com mais de sessenta anos confessados, e a pôr florestas de chifres no marido e nos amantes, insaciável. Com netas balzaquianas e bisnetas casadoiras, e ela a fazer caridade – e que caridade!, era árdega e magnânima fêmea – a jovens estudantes necessitados. Mirandão semicerrou os olhos: para não ver a vizinha, carcaça sem recurso nem escapatória, e também para melhor recordar o uterino e inesquecível furor de Célia Maria Pia dos Wanderleys e Prata e as notas de cinqüenta e cem mil-réis que ela, grata, rica e esperdiçada, lhe enfiava às escondidas no bolso do paletó. Ah!, bons tempos aqueles, Mirandão a iniciar-se nos estudos e nos mistérios da vida, calouro de agronomia, cascabulho da noite, e Maria Pia dos Wanderleys gastava legítimo perfume francês nas rugas do pescoço e nos baixios.

Reabriu os olhos para a sala, a sentir nas narinas a fragrância da inolvidável tataravó; a seu lado, o xaveco com cara de bruxa – argaço vil, pelancas nas bochechas, coque nos cabelos – continuava a fitá-lo com seus olhos miúdos. Era um espantalho, devia feder sob as anáguas, um aftim de carne passada; Mirandão aspirou rápido as sobras do perfume francês na memória distante – ah!, nobre Wanderley, onde andarás agora, septuagenária? A velha na cadeira, que estrepe mais sem misericórdia!

Educado, porém, como se honrava de ser, o permanente estudante de agronomia não deixou de sorrir para dona Rozilda. Uma bruaca, uma catraia, resto de peixe seco e salgado, inútil para qualquer ação ou pensamento lúbrico, nem assim deixava de merecer respeito e atenção: exausta mãe de família, pelo jeito viúva; e Mirandão era, no fundo, um moralista extraviado nas casas de tavolagem. Ao demais, chegara seu momento de euforia.

– Festinha animada, não acha? – perguntou a dona Rozilda iniciando o histórico diálogo.

Era sempre assim, em cada um de seus freqüentes pileques. Primeiro tinha aquela fase de esfuziante júbilo. Parecia-lhe o mundo perfeito e bom, a vida alegre e fácil, e naquela hora Mirandão tudo podia compreender e estimar, estabelecia-se entre ele e as demais criaturas um clima de comunhão total, mesmo entre ele e a fedida arraia-mijona, sua vizinha de cadeira. Ficava delicado, conversador, a imaginação extravasando, sem limites. A figura do estudante pobre, “perpétuo estudante e perpetuamente sequioso”, imagem por ele criada e da qual vivia, cedia lugar ao homem moço, importante e vitorioso, promovido a engenheiro-agrônomo, quando não a livre-docente da escola, enumerando vantagens, galgando cargos e conquistando mulheres. Danava-se a contar histórias, e como as contava! Era um mestre da narrativa oral, criador de tipos e de suspense, um clássico da boa prosa.

Se a bebedeira se prolongava, no entanto, ao fim da noite esse otimismo e essa euforia se esfumavam, e, ao término da esbórnia, envolvia-se Mirandão em lástima e lamento, a flagelar-se, lancinante, em impiedosa autocrítica, recordando a esposa vítima de sua degradação, os quatro filhos sem comida, toda a família ameaçada de despejo, e ele ali, nos antros de jogo e nos prostíbulos. “Sou um miserável, um crápula, um canalha”, alardeava um Mirandão pungente, com remorsos e sem malícia, um moralista. Mas essa segunda e lamentosa fase só de raro em raro acontecia, só em ocasiões de porres monumentais.

Às vinte e três e trinta, porém, na casa em festa do major Pergentino Pimentel, aposentado da Polícia Militar do Estado, encontrava-se Mirandão contente com o mundo, disposto a cordial e proveitoso intercâmbio de idéias com dona Rozilda. Acabara de comer e beber à tripa forra na sala de jantar, provando todos os pratos, repetindo alguns deles. Num esperdício de comida, ali se exibiam os quitutes baianos, vatapá e efó, abará e caruru, moquecas de siri-mole, de camarão, de peixe, acarajé e acaçá, galinha de xinxim e arroz de haussá, além de montes de frangos, perus assados, pernis de porco, postas de peixe frito para algum ignorante que não apreciasse o azeite de dendê (pois como considerava Mirandão de boca cheia e com desprezo, há todo tipo de bruto nesse mundo, sujeitos capazes de qualquer ignomínia). Toda essa comilança regada a aluá, a cachaça, a cerveja, a vinho português. O major realizava sua festa há mais de dez anos, cumprindo severa obrigação de candomblé, desde quando os orixás haviam-lhe salvo a esposa ameaçada de morte com pedras nos rins. Não media despesa, juntando dinheiro o ano todo para gastá-lo satisfeito naquela noite. Mirandão se atolara, garfo respeitável e copo mais ainda. Agora, empanzinado, afrontado de tanto comer e beber, só mesmo um bom cavaco para ajudar a digestão.

Na sala, os pares desdobravam-se no tango argentino, ao piano Joãozinho Navarro. Dizendo-se Joãozinho Navarro, para os entendedores já se disse tudo, não havia pianista mais requestado na Bahia, e certa gente, como um juiz de nome Coqueijo muito entendido em música, ligava o rádio só para ouvi-lo a dedilhar, num programa de canções populares. E, pela madrugada, no Tabaris, não era seu piano o motivo da maior animação? Festa particular dificilmente o obtinha, não lhe sobrando tempo para tais amadorismos. Indefectível, porém, na brincadeira em casa do major, a quem Joãozinho não podia enfunar, era-lhe devedor de gentilezas antigas.

Mirandão olhava complacente os dançarinos, aplaudia com a cabeça a execução de Joãozinho – batuta! – , sorrindo para a vizinha, constatando a absoluta ausência de qualquer outro penetra, além dele e de Vadinho. Nenhum outro herói! – penetrar na festa do major Tiririca (como os moleques do Rio Vermelho haviam apelidado o bravo Pergentino) era proeza impossível, motivo de apostas e desafios. Mirandão considerava-se realizado: finalmente haviam conseguido, ele e Vadinho, furar a barreira estabelecida pelo major e obter que a pesada porta de carvalho, trancada a chave, única passagem a abrir-se para os convidados e só para os convidados – todos eles rostos familiares aos donos da casa, amizades de longa data – , obter que se abrisse para ele e para Vadinho e lhes desse entrada. E não só isso; sendo os dois acolhidos aos abraços pelo major e por dona Aurora, sua esposa, ainda mais ciosa da qualidade e identidade dos convivas que o marido. Lá fora, no sereno animadíssimo, os gabirus amargaram a derrota ao vê-los penetrar, após breve troca de palavras com o major Tiririca, cruzando a intransponível soleira por entre ruidosas exclamações de dona Aurora. Como o haviam conseguido?

Mirandão suspirou de bucho farto, num sorriso beato. Lá ia Vadinho pela sala, a bailar, a dama linda em seus braços, morena rechonchuda, servida de carnes – e quem gosta de ossos é cachorro – , com uns olhos de azeite e uma pele cobreada, cor de chá, formosa de ancas e de seios.

– Pedaço de descaminho, perdição de morena! – louvou Mirandão, apontando a moça a dançar com o amigo.

O estupor pôs-se em guarda, alteou o busto seco, ganiu com voz batalhadora:

– É minha filha…

Mirandão nem se alterava:

– Pois receba meus parabéns, minha senhora. Vê-se logo que é moça direita, de família. O meu amigo…

– O moço que está dançando com ela é seu amigo?

– Se é meu amigo? Íntimo, minha senhora, fraterno…

– E quem é ele, eu poderia saber?

Mirandão endireitou-se na cadeira, puxou do bolso o lenço perfumado, enxugou umas gotas de suor na testa larga, cada vez mais sorridente e feliz: nada havia de que ele tanto gostasse como de armar uma patranha, uma história bem divertida.

– Permita-me que antes eu me apresente: doutor José Rodrigues de Miranda, engenheiro-agrônomo, requisitado no gabinete do delegado auxiliar… – estendia a mão, cordialíssimo.

Num último assomo de desconfiança, dona Rozilda mediu o interlocutor com um olhar hostil. Mas a fisionomia pachola e o franco sorriso de Mirandão apagavam qualquer suspeita, rompiam qualquer resistência, desarmavam e conquistavam qualquer adversário, mesmo maligno e ranheta como dona Rozilda.

7

Parêntesis com Chimbo e com Rita de Chimbo

Naquele dia, ao fim da tarde, quando maior o mormaço, uma atmosfera espessa, de cimento armado, estando Vadinho e Mirandão em São Pedro, no Bar Alameda, a tomar as primeiras cachaças do dia, discutindo planos para a noite de festa no Rio Vermelho, eis que na porta do botequim viram surgir a afogueada face de Chimbo, aquele parente importante de Vadinho, na ocasião comissionado como delegado auxiliar, ou seja a segunda pessoa da polícia.

Escrivão de casamentos e filho de prestigioso político governista, sem respeito pela tradicional austeridade do pai, sem ligar para as conveniências, esse distante primo de Vadinho, Guimarães dos legítimos e ricos, era um estróina, folgazão inveterado, bom no trago, nos dados e nas putas – para tudo dizer: um porra-louca. Ultimamente um pouco retraído, forçando sua natureza espontânea, em atenção ao cargo. Cargo no qual, por isso mesmo, pouco duraria, preferindo sua liberdade às posições, não a trocava pela mercê mais alta, por título algum.

Já anteriormente desistira do governo de Belmonte, cidade de seu nascimento, onde fora empossado intendente pelo pai, senador e feudal, após um simulacro de eleição. Abandonou posto e título, deveres e vantagens, era demasiado o preço a pagar. Não se contentavam os belmontenses com suas reais qualidades administrativas, exigiam de seu governador ilibados costumes, em intolerável abuso.

Fora um zunzunzum dos diabos, um escândalo sem medida, só porque ele, audaz e progressista, importara da Bahia algumas amenas raparigas, no desejo de romper a monotonia da pequena cidade e sua solidão. Fizera vir Rita de Chimbo, prestigiosa animadora da noite no Tabaris. De Chimbo apelidada devido a antigo e persistente rabicho a uni-los, xodó cantado em prosa e verso pelos boêmios. Brigavam, xingavam-se, separavam-se para sempre e dias depois faziam as pazes, permaneciam em seu idílio, enrabichados. Por isso juntara Rita a seu nome o apelido de seu amor, assim como a noiva adota o sobrenome do noivo no ato do matrimônio. Ao sabê-lo intendente, senhor de baraço e cutelo a exercer direito de vida e morte sobre indefesa população, exigiu, em mensagem telegráfica, compartir de sua autoridade. Que prazer no mundo se pode comparar ao do mando, ao do poder? Queria saboreá-lo a voluptuosa Rita. Chimbo solitário nas noites de Belmonte, longas de nada por fazer, vazias de um tudo, escutou a súplica ardente, mandou buscar a rapariga.

Chimbo intendente, rei em sua cidade, Rita de Chimbo não podia nesse império desembarcar como uma qualquer, era a favorita, a concubina real. Eis por que convidou para seu cortejo três beldades, diversas entre si mas excelentes as três: Zuleika Marron, mulata de capricho e deboche, suas ancas de saracoteio fechavam as ruas, atropelavam os pedestres; Amália Fuentes, enigmática peruana de voz macia, com tendências místicas, e Zizi Culhudinha, uma espiga de milho, frágil e doirada, sapeca como ela só. Essa restrita e formosa caravana, pesa dizê-lo!, não teve em Belmonte a entusiástica acolhida a que fazia jus, ao contrário, foi alvo de aberta hostilidade por parte das senhoras e mesmo de cavalheiros. Se excetuarmos certos grupos sociais – os imberbes estudantes, os escassos notívagos, os cachaceiros em geral – e alguns indivíduos, cabe afirmar ter-se mantido a população arredia e suspeitosa.

Depois, Rita de Chimbo foi vista à meia-noite, na sacada da intendência, bêbada de cair, a saudar a cidade com sua inesgotável coleção de nomes sujos. Circulavam notícias espantosas: o velho Abraão, comerciante e avô, arrastava-se ridículo aos pés de Zuleika Marron, dilapidando o patrimônio dos netos em bacanais com a barregã. Bereco, rapaz até então direito e casto, funcionário dos Correios, presidente das Obras Pias, apaixonara-se por Amália Fuentes, descobrira suas raízes de pureza e religiosidade, oferecia-lhe aliança de noivado, levando sua preconceituosa família ao desespero. Culminou o escândalo quando a Culhudinha fez-se a bem-amada de todos os colegiais, seu sonho e sua rainha, sua bandeira de luta e seu pulcro ideal. Lá ia ela toda loira nas noites de Belmonte, cercada de meninos e o poeta Sosígenes Costa dedicava-lhe sonetos. Oh!, ignomínia!

Até o xibungo do vigário, padre arrogante de fala esganiçada, pregara contra Chimbo, catilinária veemente contra sua escandalosa incontinência. Classificara as diletas raparigas de “lixo do meretrício metropolitano”, de “asseclas do demônio”, coitadinhas das meninas! Sermão incendiário, a igreja repleta na missa dominical, e o reverendo a acusar Chimbo de estar transformando a pacata Belmonte em Sodoma e Gomorra, os lares arruinados, desfeitas as famílias, urbe infeliz à qual acontecera a desgraça de tão depravado intendente, esse “Nero em ceroulas”. Chimbo possuía senso de humor e riu da virulência do padre. Choraram as raparigas, Rita de Chimbo clamou vingança, e Miguel Turco, árabe exaltado e secretário da intendência, incondicional dos Guimarães e chaleira notório, propôs-se executá-la: mandariam dois cabras de confiança ensinar boas maneiras ao subversivo vigário, chegando-lhe a batina ao corpo.

Chimbo enxugou as lágrimas de Rita, agradeceu a dedicação do sírio, gratificou os dois capangas, dois criminosos de morte, foragidos de Ilhéus. Sob aparente nonchalança, era Chimbo homem prudente e hábil, não lhe faltava treita política. Imagine-se a reação do velho senador se ele entrasse em guerra com a Igreja, surrando-lhe um cura para desagravar mulheres-damas! Ao demais, o padre tinha suas razões para tamanha birra. Ao tratá-lo de “Nero em ceroulas”, queria referir-se à noite em que, trajando apenas listadas cuecas, tivera o ilustre intendente de assim atravessar a cidade pois o vigário vinha de surpreendê-lo em avançado idílio com a cândida Maricota, estimável doméstica a assegurar os serviços de cama e mesa do sacerdote, sua ovelha favorita.

Não restou a Chimbo outro caminho senão reunir as ofendidas hóspedes, dar o braço a Rita de Chimbo, e embarcar com elas num navio da Bahiana. Renunciou assim ao cargo, às honrarias, e à polpuda comissão do jogo do bicho. Órfão ficou Belmonte de sua capacidade administrativa e da lhaneza das beldades da capital. Da eficiente administração de Chimbo davam testemunho a restaurada ponte de desembarque, a ampliação do grupo escolar e os consertos no muro do cemitério; das raparigas, a fugidia visão continuou por muito tempo a perturbar o sono de Belmonte.

Recolheu-se Chimbo ao anonimato do rendoso lugar de serventuário da justiça, onde ninguém lhe vigiava os passos. Reintegrou-se na vida noturna, do Tabaris (onde Rita de Chimbo voltara a reinar) ao Pálace, do Abaixadinho à casa de Três Duques, do castelo de Carla ao de Helena Beija-Flor. Da festa da noite e do cargo polpudo e anódino – escrivão de casamentos, juramentado – retirava-o de quando em quando o pai senador para usá-lo em suas manobras políticas, entregando-lhe posições e honrarias por outros ambicionados, não por ele, Chimbo, desejoso apenas de viver livre, a la vontê.

Chimbo estimava Vadinho, não só pelo distante e espúrio parentesco, como também devido às qualidades do jovem companheiro de roletas e cabarés. Assim, ouvindo certa ocasião alguém tachar Vadinho de vagabundo, sem ofício nem meio de vida, arranjou-lhe modesto emprego de fiscal de jardins da prefeitura, pois “um Guimarães deve ter posição definida na sociedade”.

– Nenhum Guimarães é um vagabundo…

Contradições desse simpático Chimbo, tão pouco preso a convenções e protocolos e, ao mesmo tempo, com profundo sentimento de família, zeloso da poderosa clã dos Guimarães.

Pois, naquela tarde, Vadinho e Mirandão encontraram Chimbo em São Pedro, quando o delegado auxiliar dirigia-se à chefatura de polícia. Um Chimbo aporrinhado da vida, metido em roupa escura e quente, de cerimônia, roupa de enterro ou matrimônio – colarinho de ponta virada, plastrão, colete, polainas, bengala de castão de ouro – , um Chimbo a rigor naquele dia escaldante de fevereiro, o mormaço a asfixiar, canícula mortal, as bocas ávidas por uma cerveja bem gelada.

– Só uma bramota polar pode nos salvar a vida… – disse Vadinho, abraçando o parente e protetor.

Chimbo arrenegou da sorte, em plástica e forte língua, dando nomes, num azedume “Merda de vida mais escrota aquela, emprego mais filho-da-puta aquele, obrigado a acompanhar o governador a todos os cantos, a todas as cerimônias, a todas essas merdolências e porcarias…”. Não o viam assim fantasiado de comendador português? Naquela noite tinha de comparecer, por força do cargo, à instalação solene de um congresso científico – Congresso Nacional de Obstetrícia – , na faculdade de medicina, com discursos e teses, debates e pareceres sobre partos e abortos, paulificação monumental. Chimbo emborcava rápido seu copo de cerveja, tentando aplacar calor e raiva, seu pai com aquela eterna mania de utilizá-lo na política…

E ainda por cima – imaginassem eles a urucubaca! – o tal congresso decidia instalar-se logo na noite da festa do major Pergentino, o major Tiririca, do Rio Vermelho, certamente eles sabiam de quem se tratava. Fizera um favor ao militar, soltara um desordeiro a seu pedido, e agora o major não o largava, querendo a todo custo obsequiá-lo, preparando-lhe grossa homenagem. A festa de Tiririca, segundo diziam, era de arromba, valia a pena, nela comia-se e bebia-se à farta. E ele, Chimbo, convidado de honra, imaginem a pagodeira!

– Em vez disso vou ter é de ouvir médico falando em parto… Meu pai me arranja cada prebenda…

Como convencer o senador a deixá-lo em paz, em seu canto, se o velho era um sátrapa ante o qual até o governador tremia? Brilharam os olhos de Vadinho, sorriu Mirandão, Chimbo acabava de abrir-lhes as portas da glória e da casa do major.

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Litres'teki yayın tarihi:
26 şubat 2026
Yazıldığı tarih:
1966
Hacim:
640 s. 1 illüstrasyon
ISBN:
978-5-9925-2087-3
Telif hakkı:
КАРО
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